1985: O que aconteceu na música em 30 discos

O ano de 1985 foi incrivelmente importante para o mundo da música. Esta seleção de 30 discos explica o porquê

Seguindo nossa viagem de volta para o passado, esse post vai revirar 1985 e relembrar o que a música trouxe de melhor naquele ano. Mas o que acontecia no mundo há 30 anos atrás?

Em 1985 os 21 anos de repressão da Ditadura Militar Brasileira chegaram ao fim, com a volta das eleições diretas.
No dia 19 de setembro o México foi palco de um dos piores terremotos da história. O tremor atingiu 8.1 na Escala Richter abalando as estruturas da Cidade do México, deixando 9500 pessoas mortas, 30 mil feridas e 10 mil desalojadas.
A primeira edição do Rock In Rio aconteceu no Rio de Janeiro, trazendo grandes nomes da música ao Brasil, como Queen, AC/DC, Iron Maiden e Yes.
Algumas personalidades que nasceram no ano foram Lana Del Rey, Bruno Mars, Lily Allen, Amanda Seyfried, Keira Knightley e Cristiano Ronaldo, além do falecimento de Tancredo Neves.
Alguns clássicos do cinema foram lançados em 85: O Clube dos Cinco, De Volta para o Futuro, Os Goonies, Mad Max: Beyond Thunderdome e Depois de Horas.

INTERNACIONAL

New Order — Low Life

New Order — Low Life

Low-Life é considerado o trabalho mais consistente do New Order, que finalmente estagna a fase de transição pela qual a banda passava: a herança post-punk vinda do Joy Division e a busca do novo som. Utilizando abusivamente de sintetizadores e samplers para a criação do dance rock presente nesse álbum e preservando certos aspectos do rock presentes nos discos anteriores, a banda criou sua obra definitiva. Um verdadeiro clássico que contém a diversificação de vários gêneros na criação da identidade do New Order.

Tears For Fears — Songs From The Big Chair

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O título do álbum mais bem-sucedido do Tears for Fears foi inspirado no filme “Sybil”, no qual a protagonista só se sentia segura sentada na “big chair” (grande cadeira) de seu analista. Com os maiores sucessos da banda, “Songs From the Big Chair” emplacou três singles que se tornaram clássicos dos anos 80: “Shout”, “Everybody Wants to Rule the World” e “Head Over Heels”. O álbum chegou ao primeiro lugar das paradas americanas e vendeu mais de 5 milhões de cópias só nos Estados Unidos, provando que o pop melódico do Tears For Fears foi muito bem recebido na terra do Tio Sam.

A-ha — Hunting High And Low

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Um dos maiores sucessos dos anos 80, a banda norueguesa A-ha se tornou um dos ícones da década com seu álbum de estreia: Hunting High And Low. Vendendo mais de 10 milhões de cópias em todo o mundo, o álbum foi um sucesso comercial, levando o grupo a ter uma indicação ao Grammy de Melhor Revelação em 1986 (foi a primeira banda norueguesa a receber tal indicação). Alcançando o topo das paradas musicais ao redor do mundo, o A ha emplacou quatro hits com seu primeiro disco: “Take on Me”, “The Sun Always Shines on T.V.”, “Hunting High and Low” e“Train of Thought”. A capa do disco, uma fotografia da banda tirada por Just Loomism, foi indicada ao Grammy de “Capa de Álbum do Ano”, também em 1986.

The Cure — The Head On The Door

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Após sua fase de obscuridade, o The Cure lançou The Top, em 1984 — disco que marcou o período de indefinições da banda. Já em 1985, o The Cure se reinventou com The Head On The Door, tornando-se uma verdadeira máquina de hits, agradando o público alternativo e o mainstream simultaneamente. O álbum mostra as diversas facetas que o The Cure viria a explorar na continuidade de sua carreira. “Inbetween Days” e “Close to Me” mostravam o rock moderno e a vibe ideal para transmissão em rádios e na MTV, enquanto “Screw” é a síntese da fórmula musical dos anos 80. Mesmo assim, o The Cure não perdeu as características melancólicas e emocionais, ilustradas em “Sinking” e “A Night Like This”. A diversidade de The Head On The Door é confirmada pelo próprio Lol Tolhurst, em 1988: “Foi o álbum mais variado que já fizemos, um pouco como uma compilação de singles.” Um verdadeiro trunfo na carreira da banda e na vertente da musicalidade que o The Cure explorava.

Tom Waits — Rain Dogs

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A diversidade musical e o aprofundamento lírico são os principais ingredientes de Rain Dogs, cultuado álbum de Tom Waits. O título da obra, segundo ele, é sobre “pessoas que vivem na rua. Você sabe, como depois da chuva você vê todos esses cães que parecem perdidos, andando por aí. A chuva remove todo o odor, toda orientação deles. Então, todas as pessoas no álbum estão entrelaçadas por alguma maneira física de compartilhar essa dor e desconforto.” Entre os diversos instrumentos utilizados para o processo de criação do álbum estão marimba, acordeão, contrabaixo, trombone, sax, trompete, clarinete, órgão e banjo. Em uma época que a utilização de samplers estava em alta — o que tornou muito material produzido nos anos 80 totalmente dispensável, pelo fato de praticamente tudo parecer a mesma coisa — se o som da bateria não agradasse Tom, ele batia em cômodas com pedaços de madeira até que o som “se tornasse algo seu”. Com participações de grandes nomes da música, como Keith Richards, Marc Ribot, o álbum é uma mistura abrangente de diferentes gêneros e estilos, conceituado com um tema urbano. As 19 faixas que compõem o trabalho do artista são um verdadeiro passeio de montanha russa por vertentes musicais: o jazz de New Orleans e o blues do sul dos Estados Unidos, o folk e o rock experimental — todos têm seu lugar na obra de Tom Waits, que transita pelos gêneros e os mistura com uma genialidade ímpar.

The Jesus And Mary Chain — Psychocandy

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Psychocandy é o primeiro álbum de estúdio do The Jesus And Mary Chain, que trouxe as guitarras distorcidas pra música pop. Tendo como influência as bandas Einstürzende Neubauten (industrial alemã), The Shangri-Las (grupo pop feminino) e Velvet Underground & Nico (dispensa apresentação), The Jesus And Mary Chain desenvolveu uma musicalidade única, sendo uma das maiores representantes do noise pop. Na criação de Psychocandy, a banda utilizou elementos do noise rock (guitarras distorcidas, drones e a atitude) e misturou-os com características pop, como letras grudentas e facilmente identificáveis. “Cut Dead”, “Taste Of Cindy” e “The Hardest Walk” causavam dor de cabeça em qualquer pai preocupado com o filho trancado no quarto ouvindo a banda. Já em “Taste the Floor” e “Some Candy Talking” temos o lado mais melódico e pop da banda. Psychocandy foi um dos pilares da música alternativa e inspiração para o shoegaze, que teve seu auge nos anos 90.

Simple Minds — Once Upon A Time

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Já popular no Reino Unido e Europa, foi com “Don’t You (Forget About Me)”, presente na trilha sonora do sucesso absoluto dos anos 80, The Breakfast Club (Clube dos Cinco), que o Simple Minds consolidou sua fama nos Estados Unidos. A canção, um dos maiores hits da década, foi deixada fora do álbum deliberadamente, e mesmo assim emplacou quatro singles nas paradas: “Alive and Kicking”, “All the Things She Said”, “Sanctify Yourself” e “Ghost Dancing”. Once Upon A Time finalmente conseguiu captar a energia crua e a composição enxuta da banda, que com suas batidas synth-pop e vocais característicos tornam o disco trabalho mais sólido do Simple Minds.

The Smiths — Meat Is Murder

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O segundo álbum de estúdio do The Smiths mostra amadurecimento em relação ao primeiro e marca a transição de sonoridade e composição pela qual a banda passaria em sua curta carreira. A temática da violência é abordada em quatro das nove faixas do disco: “Meat Is Murder”, música título do álbum, trata a violência com os animais; “The Headmaster Ritual”aborda a violência nas escolas de Manchester, “Rusholme Ruffians”, a violência em feiras de diversão e “Barbarism Begins at Home”, como o próprio título já diz, violência doméstica. Pode-se perceber o crescimento musical da banda que tornou-se mais politizada e que tinha entre seus alvos a monarquia, a administração de Thatcher e seus contemporâneos musicais. Com apenas quatro álbuns de estúdio e uma carreira de cinco anos, o The Smiths conseguiu deixar um legado indispensável e se tornou a maior representante do rock alternativo dos anos 80.

Aretha Franklin — Who’s Zoomin’ Who?

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A Rainha do Soul, Aretha Franklin, conseguiu com “Who’s Zoomin’ Who?” agradar tanto a crítica quanto o público. O single “Freeway of Love” rendeu à cantora o Grammy de Best Female R&B Vocal Performance e alcançou o topo das paradas, sendo um dos maiores na carreira da cantora. A voz poderosa e inconfundível de Aretha ressoa nas faixas com pegada mais R&B do álbum, como “Sweet Bitter Love” e “Until You Say You Love Me”; e se torna envolvente nas músicas dance: “Push” e “Sisters Are Doin’ It for Themselves”, que conta com a participação do duo britânico Eurythmics. Com uma carreira secular como a de Aretha, é fácil identificar a importância de cada obra individualmente: Who’s Zoomin’ Who? mostra o poder e a sensualidade feminina, tanto nas baladas quanto nas canções que ecoaram pelas pistas de dança nos anos 80.

The Replacements — Tim

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Havia muita expectativa acerca do sucessor de “Let It Be”, álbum que colocou o The Replacements no foco da crítica. A banda não decepcionou. “Tim” é uma verdadeira obra prima, que captou a alma da banda e de seu público, simultaneamente. Produzido pelo lendário Tommy Ramone, baterista original dos Ramones, o disco é uma das evidências de que nos anos 80 rock alternativo fervilhava, apesar de lutas ferrenhas pelos holofotes por parte de outros gêneros musicais e até outras vertentes do rock. A mídia apostava em peso na banda, que não se sentia confortável com aquele tipo de exposição. Seus videoclipes não eram “MTV material”, suas apresentações em programas consistiam na banda tocando embrigada, com Paul Westerberg bradando palavrões, na maior atitude punk rock. Apesar disso, a banda se consolidou na cena alternativa, onde causou grande impacto, e “Tim” — com suas canções que falam pela geração (“Hold My Life”, “Bastards of Young” e “Left of the Dial”), suas baladas melódicas e ainda assim recheadas de ironia (“Swingin Party” e“Kiss Me On The Bus”) — é o grande responsável, já que foi o primeiro álbum da banda com uma grande gravadora.

R.E.M. — Fables of the Reconstruction

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O terceiro disco do R.E.M. se distanciou das propostas de seus sucessores. “Fables of the Reconstruction é um álbum sombrio. Apesar de ter sido o único disco da banda que foi gravado fora dos Estados Unidos (Inglaterra), a influência folk do produtor Joe Boyd, atrelada ao rock alternativo da banda, criou uma atmosfera folk psicodélica, com uma concepção southern gothic, que fala de personagens repletos de falhas, situações grotescas e sinistras. “Can’t Get There From Here” é o ponto de luz nessa estrada rústica e temperamental que a banda percorre ao longo do álbum; sua presença chega a ser cômica, quase como um interlúdio para dar ao ouvinte uma chance de recuperar o fôlego. O R.E.M. foi uma das pouquíssimas bandas de rock alternativo que alcançou sucesso comercial pleno nos anos 80 (com “Document”, de 1987), mas a fase pitoresca da banda em Fables of the Reconstruction é muito mais atrativa.

Dire Straits — Brothers In Arms

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Distanciando-se do apresentado no antecessor “Love Over Gold”, “Brothers In Arms” foi uma verdadeira metralhadora de hits pop-rock, que ainda contava com o trunfo que era o videoclipe animado de “Money For Nothing”, colaborando ainda mais com o sucesso de vendas. A linha rítmica e chiclete de “Walk Of Life” é reconhecida por qualquer pessoa que tenha um par de orelhas em funcionamento, provando que a lapidação pop da banda funcionou muito bem. “Your Latest Trick” e “Ride Across The River” possuem batidas mais criativas e roots, sendo as faixas mais relevantes do disco.

Sonic Youth — Bad Moon Rising

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Narrando o lado obscuro da América, “Bad Moon Rising” é uma obra densa, e ao mesmo tempo, interessante — apesar de não ser para qualquer ouvinte. Você pode brincar de gostar do Sonic Youth que toca no Guitar Hero, ou nas playlists “indie” por aí, mas não é qualquer um que consegue acompanhar os oito minutos de transcendência dos riffs experimentais e arranjos noise em “I Love Her All The Time”, por exemplo. A essência do Sonic Youth está atrelada ao fato de sua arte não ser facilmente compreendida — requer tempo e mente aberta, mas vale à pena. As faixas do disco são peças de um quebra cabeça, simultaneamente, cada uma delas é um quebra cabeça por si só — a experimentação da banda, que vai muito além de gêneros musicais, torna “Bad Moon Rising” assustador e envolvente. Como já dito, não é pra qualquer um.

Meat Puppets — Up On The Sun

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Após transitarem pelo punk rock e as influências country em seus dois primeiros discos (“Meat Puppets” e “Meat Puppets II”), foi com “Up On The Sun” que o Meat Puppets encontrou seu som. Repleto de misticidade e uma vibe bem única, faixas como “Animal Kingdom” e “Creator” falam de animais na cabeça e o quanto a religião é esquisita. Já em “Maiden’s Milk” os vocais são substituídos por assobios. A leveza e união da banda tornam “Up On The Sun” um álbum delicioso, divertido e cheio de energia.

Kate Bush — Hounds Of Love

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“Hounds of Love” é o álbum mais importante da carreira de Kate Bush. Feito inteiramente ao gosto da artista, com suas letras e preferências, o disco foi um sucesso completo. Reintroduzindo Bush à terra do Tio Sam e alcançando o topo das paradas europeias, “Hounds of Love” emplacou quatro singles: “Cloudbusting”, “Hounds of Love”, “The Big Sky” e “Running Up That Hill”, seu maior sucesso desde o lançamento da canção “Wuthering Heights” (1978). O álbum foi cuidadosamente desenvolvido e dosado para o pop, sem deixar o lado artístico de fora. A voz de Kate Bush e sua habilidade de produção tornam a obra intimista e ao mesmo tempo um chamariz com ótimas canções.

The Fall — This Nation’s Saving Grace

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O The Fall torna o punk acessível sem perder a atitude em “This Nation’s Saving Grace”. Mesmo sendo controverso, já que muitos fãs não ficaram satisfeitos com o pé que a banda fincou no pop nessa obra, o álbum não deixa de ser audacioso, com faixas como “Bombast”. A fúria se mistura com o sentimentalismo do pop trançando uma tapeçaria vasta de vertentes musicais até então não exploradas pela banda: “Couldn’t Get Ahead” representa a chama punk que ainda estava presente, já em “To Nkroachment: Yarbles” temos a melancolia, recheada com as características da banda. O The Fall possui uma discografia extensa, mas “This Nation’s Saving Grace” merece atenção especial, já que expõe o conflito de toda uma geração da forma que só a música consegue fazer.

Dead Can Dance — Spleen and Ideal

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As origens pós-punk e góticas das quais surgiram o Dead Can Dance foram distanciadas no segundo trabalho da banda: “Spleen And Ideal”. A atmosfera do álbum é medievalista e folclórica, e transcende tempo e espaço, te transportando para grandes igrejas na Idade das Trevas ou para feudos. O misticismo está presente em cada parte do álbum, da arte da capa ao título das músicas, passando pelos vocais grandiosos que se misturam com um instrumental impecável e poderoso. “Mesmerism” possui apenas uma estrofe que é incorporada pela vocalista Lisa Gerrard com tanta paixão que o resultado é arrepiante. Uma obra histórica que faz o ouvinte viajar sem sair do lugar.

Hüsker Dü — New Day Rising

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Misturando elementos do punk e da música hardcore, apesar de não estagnar particularmente nesses gêneros, o Hüsker Dü alcança seu primor com “New Day Rising”. A dobradinha bateria energética + guitarra distorcida, abençoada com letras tanto obscuras (“Terms Of Psychic Warfare”) quanto divertidas (“Songs About UFOs”) torna o álbum indispensável. A atitude punk é banhada por acessibilidade e inteligência, sem perder a essência, e em certo ponto, esquisitice (“How to Skin a Cat” e “Folk Lore”são as maiores provas). “New Day Rising” é um álbum energético que traz o melhor dos dois mundos: a agressividade do punk e a sensibilidade nas letras. Um verdadeiro presente para o rock alternativo e para música, no geral.

Minutemen — 3-Way Tie (For Last)

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Lançado após a morte de D. Boon, vocalista e guitarrista da banda (que também ilustrou a capa do álbum), “3-Way Tie (For Last)” é o último disco do Minutemen. Contendo diversos covers de bandas (entre elas The Urinals, Meat Puppets, Blue Öyster Cult, Creedence Clearwater Revival), o álbum continua explorando o lado politizado do Minutemen (“The Big Stick”, “The Price Of Paradise”). Apesar da falta de funk, os riffs de baixo são envolventes e serviram de influência posterior. Denso, porém excelente, “3-Way Tie (For Last)” se engrandeceu ao longo do tempo, dando ao Minutemen um final inesquecível.

NACIONAIS

Ultraje a Rigor — Nós Vamos Invadir sua Praia

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Um dos berços do rock nacional, o Rio de Janeiro foi invadido pelas bandas paulistas na década de 80, o que inspirou o título do disco de estreia do Ultraje a Rigor: “Nós Vamos Invadir Sua Praia”, que era altamente antecipado, pois “Mim Quer Tocar”, “Eu Me Amo” e “Rebelde Sem Causa” já eram verdadeiros hits, lançados em LP antes do disco. “Nós Vamos Invadir Sua Praia” é formado por verdadeiros clássicos atemporais, como “Ciúme”, “Inútil” e “Marylou”, (com participação especial de Herbert Vianna, dos Paralamas do Sucesso, tocando guitarra solo). Nove das onze faixas do disco estiveram entre as mais tocadas da época, trazendo um sucesso inacreditável ao Ultraje A Rigor, que quebrou recordes de público em seus shows. A banda soube contar a história da juventude da década de 80, engajada no movimento político das Diretas Já!. Com um humor afiado e crítico, o disco é uma das obras mais importantes da música brasileira.

Vários Artistas — Rock Grande do Sul*

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Nesta lista é possível notar como este era um tempo de predominância do rock nacional, ao contrário de 1975, quando vimos MPB/tropicalismo e até rock progressivo, esse era o tempo de uma lista mais hermética em termos de gênero musical, ainda existiam as Gal, Tim, Caetano e Robertão fazendo bons discos, mas como medalhões consolidados da música nacional. A urgência no Brasil de 1985, além de democracia… era o rock das ruas, dos jovens, em suas várias vertentes. E quando falamos de rock brasileiro, simplesmente não dá pra ignorar o legado gaúcho. “Rock Grande do Sul” foi uma coletânea bancada pela RCA, ou Sony Music, reunindo novos artistas do estado, com potencial de finalmente se tornarem relevantes em território nacional. O disco é importante pelas músicas, mas mais do que isto, por finalmente colocar luz e projeção nacional ao estado que até hoje tem rendido bandas talentosas. A partir desta coletânea: Replicantes, TNT, DeFalla, Garotos da Rua e Engenheiros do Hawaii tiveram suas carreiras consolidadas. Discaço, o ás de espadas do rock gaúcho e porque não, brasileiro.

Legião Urbana — Legião Urbana

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O disco de estreia do Legião Urbana, de título homônimo, marca o início da jornada de uma das mais importantes e representativas bandas do Brasil. A canção “Será” foi escolhida para divulgação do disco, que ganhou um videoclipe. A música faz parte da trindade (juntamente com “Geração Coca-Cola” e “Ainda É Cedo”) de músicas que até hoje são grandes sucessos. “Geração Coca-Cola” é uma crítica geral: ao governo, à juventude e à globalização, que na década de 80 ainda se iniciava, e que trouxe ao Brasil o american way of life. Apesar de ser um disco de estreia, “Legião Urbana” é maduro e nos dá um gostinho do quanto a banda iria evoluir, tanto nas composições quanto nos arranjos musicais.

RPM — Revoluções por Minuto

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O ano de 1985 foi um verdadeiro frenesi de acontecimentos, que refletiram diretamente na produção musical brasileira. O RPM também lançou seu primeiro disco de estúdio no ano, que continha os hits “Louras Geladas” e “Revoluções por Minuto”, lançados em EP no ano anterior. O álbum foi o pontapé inicial para o sucesso que esperava a banda, que vendeu mais de 5 milhões de discos ao longo de sua carreira. Oito das onze faixas do álbum foram hits emplacados nas rádios brasileiras, um verdadeiro desfile de sucessos, tendo como carro chefe “Olhar 43”. Comandada por Paulo Ricardo, que combinava seu sex appeal com veia crítica e bagagem cultural, o RPM se consolidou como uma das bandas de rock mais influentes dos anos 80.

Titãs — Televisão

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Produzido por Lulu Santos, “Televisão” foi o segundo álbum de estúdio dos Titãs, uma das maiores bandas de rock brasileiro. Apesar da miscelânea de elementos que compõem a obra, apenas três faixas do álbum viraram hits, além de “Televisão”: “O Homem Cinza”, “Massacre” e “Dona Nenê”. A produção de Lulu não agradou a banda, que em um momento inicial da carreira ainda não sabia transmitir a emoção e dinâmica apresentada nos palcos para o processo de criação de um disco. “Televisão” ainda marca o fim da aura inocente dos Titãs e o amadurecimento da banda.

Ira! — Mudança de Comportamento

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Representando as mudanças pelas quais o Ira! passava, “Mudança de Comportamento” foi o segundo álbum de estúdio da banda, gravado em apenas nove dias. Transitando entre o post-punk e o mod, o disco apresenta algumas faixas relevantes na carreira da banda, entre elas “Núcleo Base”, “Tolices”, “Ninguém Precisa de Guerra”, “Longe de Tudo” e “Ninguém Entende um Mod”. O álbum vendeu mais de 60 mil cópias e aumentou a popularidade da banda dentro do país, que se consolidou com a canção “Flores em Você”, lançada no ano seguinte.

Kid Abelha — Educação Sentimental

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1985 foi um ano importante para o Kid Abelha: A banda tocou na primeira edição do Rock In Rio e lançou o conceitual “Educação Sentimental”, seu segundo álbum de estúdio. O título do mesmo foi inspirado no livro L’Éducation Sentimentale, do francês Flaubert. Considerado uma das grandes obras-primas da música na década de 80, o disco é recheado com alguns dos maiores sucessos do Kid Abelha: “Lágrimas e Chuva”, “Garotos”, “Educação Sentimental”, “Os Outros”, “Educação Sentimental II” e “A Fórmula do Amor”. Com um claro amadurecimento nas composições, que falam sobre a transição da adolescência para a vida adulta, amores e auto suficiência, a banda soube mesclar o new wave com sua própria identidade, tornando “Educação Sentimental” um símbolo do talento do Kid Abelha.

Cazuza — Exagerado

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Em meio às gravações do quarto álbum de estúdio do Barão Vermelho, Cazuza anunciou sua saída da banda por ser “muito egoísta para dividir a atenção e os palcos”. Após uma internação para ser tratado de uma pneumonia, “Exagerado” começou a criar forma. A faixa que carrega o nome do disco, um dos maiores sucessos de Cazuza, foi descrita pelo mesmo como seu trabalho mais autobiográfico. “Balada de um Vagabundo”, “Mal Nenhum”, “Só As Mães São Felizes” — censurada por obscenidades nas rádios, e “Codinome Beija-Flor”, escrita quando o cantor estava internado, completam o auge da musicalidade de Cazuza. Misturando gêneros e criando algo tão único quanto o próprio Cazuza, “Exagerado” é uma obra-prima atemporal da música brasileira. Um daqueles álbuns que não importa o quanto você escreva sobre, jamais será capaz de transmitir as emoções que Cazuza sintetizou.

Fellini — O Adeus de Fellini

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“O Adeus de Fellini” foi o primeiro álbum do Fellini, banda pós-punk formada em São Paulo no começo dos anos 80. O título do disco é uma referência ao “The Return of the Durutti Column”, disco de estreia da banda inglesa Durutti Column. Lançado pelo selo Baratos Afins (lendária gravadora do cenário independente brasileiro), o álbum traz além das influências da música inglesa, com o new wave e o post-punk, o samba rock. A miscelânea de gêneros essencialmente brasileiros com o rock n’ roll tornou o Fellini uma das maiores influências da música underground do país. Um dos motivos da falta de maior reconhecimento nacional da banda foi a falta de divulgação por parte da Baratos Afins. Segundo Thomas Pappon, em entrevista ao site Mofo “poderia ser bem ruim (o relacionamento da banda com Calanca, dono da Baratos Afins), tendo em vista as barbeiragens em alguns relançamentos em CD e a falta de transparência da Baratos. Nunca ganhamos um centavo da gravadora. (…) As letras do Adeus de Fellini não foram revisadas pelo pessoal da banda e, por isso, têm vários erros. Até os nomes dos integrantes estão errados (Cadão Volpatto, Thomas Pappou, Ricardo Salvagui). O font das letras é horrível.” Apesar disso, O Adeus de Fellini é uma verdadeira relíquia da música independente do país, que conta com canções consistentes e únicas. “Funziona Senza Vapore”, “Nada” e “Zäune” (cantada inteiramente em alemão por Thomas Pappon) são exemplos da importância emblemática do Fellini.

Plebe Rude — O Concreto Já Rachou

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“O Concreto Já Rachou” foi o primeiro disco da banda de punk rock Plebe Rude. Produzido por Herbert Vianna, do Paralamas do Sucesso, a obra contém apenas sete faixas — que foram de grande relevância para o sucesso da banda no Brasil. “Até Quando Esperar” e “Proteção” foram hits das rádios na época do lançamento do disco, que possui os arranjos musicais simples característicos do punk rock e letras recheadas de críticas. Os 21 minutos de duração do disco foram suficientes para que o mesmo integre o hall de importância da música brasileira. Simples, duro e nocivo, como todo bom punk rock deve ser.

Garotos Podres — Mais Podres Do Que Nunca

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1985 foi o berço do punk rock brasileiro — naquele ano os Garotos Podres lançaram seu primeiro disco, “Mais Podres do que Nunca”, o disco independente que mais vendeu no país: 50.000 cópias. Os Garotos Podres são a essência do punk em sua forma mais simples: letras mal criadas, politicamente incorretas e totalmente sujas. As críticas já começam na arte do álbum, que na capa tem uma criança saudável brincando com sua mamadeira, e na contracapa, uma criança africana desnutrida. “Johnny” e “Vou fazer cocô” viraram clássicos do punk nacional, assim como “Papai Noel, Velho Batuta” e “Anarquia Oi!”. Não há muito o que se falar dos Garotos Podres — o legado construído pela banda e suas letras poderosas falam por si sós — além do fato de terem sido os maiores representantes do movimento punk no país.

(Originalmente publicado em julho de 2015. Acesso: http://www.505indie.com.br/listas/1985-o-que-aconteceu-na-musica-em-30-discos)

*Colaboração de Flavio Testa em “Vários Artistas — Rock Grande do Sul”.

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